Introdução ao Romantismo
eliane colchete
Como se pode conceituar
a irredutibilidade de Pré-romantismo e Romantismo?
Vejamos como podemos, quanto a este, ter uma referência explicitada.
Na verdade, ela é bem necessária, pois se também "pré-romantismo"
é uma legenda equívoca, muito se deve à dependência da construção
etimológica, do que precede ao que se segue.
O situamento
"europeu" da trajetória pode ser considerado também
apenas a ironia. De fato, entre a espécie de autonomia que se pode
atribuir a uma antecedência, e o seu acontecimento, a conversão
historicamente conhecida é da sociedade tradicional estruturada no
feudalismo cristão à modernidade como à sociedade
científico-industrial.
Mas o que se
deveria ressaltar, ao inverso do senso comum que assim se expandiu ao
nível dos curriculos escolares, não é só que para muitos o
período entre Rousseau e Hegel prima pela radicalidade da oposição
ao cientificismo pioneiro do Aufklarung. Por outro lado não se trata
da trajetória à reversão do "esclarecimento" em marcha,
que iria restaurar a tradição, mas, inversamente, ao trabalho do
negativo que a Aufhebung do espírito objetivo hegeliano apenas
possibilita, vindo à nova imagem da ciência, longe do generalizante
entendimento kantiano tanto como da razão clássica, que a física do calor e o princípio da incerteza vem mais tarde tipificar.
E que, por outro
lado, o correlato epistemológico dessa atitude de espírito que
estamos tratando aqui pelo estatuto da "conversão", foi a
emergência da História como ciência definida não pela elevação
do fato qualquer à concretude, nem como novo meio da passionalidade
narrativa. Mas sim, bem inversamente, como processo historiador
conceituado, cuja tessitura é documentação.
A história
nacional de Herder contra a generalidade antropológica de Kant é o
verdadeiro marco. O conceito, pois, é estritamente estrutural,
relativo a um fenômeno especificado como ao conceito científico que
o põe, não à significação generalizada do humano.
Mas por isso mesmo, a "conversão" europeia do classicismo
universalista ao mundo histórico das nações não é de fato outro
modo de estabelecer a barreira da civilização contra a barbárie
assim como do inteligível ao sensível. É a conversão do mundo à
economia das nacionalidades e ao determinismo da modernização.
A conversão da
Europa à História é a historicização do mundo como a
ocidentalização planetária que está se pondo em marcha desde a
emancipação das ex-colônias na América ao projeto de
auto-compreensão possível de qualquer realidade sócio-política. A
ironia é que e a Europa assim tanto mais se distingue como o
referencial da ocidentalização, agência dessa trajetória que
podemos chamar o umbral da modernidade planetária, tanto menos se
pode distinguir como detentora de um saber se deste o correlato vem
a ser o destino de cada um.
Entre o
pré-romantismo e o romantismo, a nebulosa se condensa na natureza,
ao menos, do que se trata como constelações, se
bem que em profusão, dos problemas e das questões
cuja matéria os dois emblemas de época, pré-romantismo e romanticismo, permitem precisar do que se
compõe. Estilos de época ou
a época em si mesma? Emblemas úteis ou palavras tão gastas que se
tornaram vazios de significação?
Impõe-se a escolha ou, ao invés, antes é preciso não querer esquecer que mesmo ela depende do elenco das opções que se construíram, de modo que nenhuma, qualquer que seja, deve ser bastante para o exaurir enquanto o Real?
Impõe-se a escolha ou, ao invés, antes é preciso não querer esquecer que mesmo ela depende do elenco das opções que se construíram, de modo que nenhuma, qualquer que seja, deve ser bastante para o exaurir enquanto o Real?
Ficamos com esta segunda asserção. A bel prazer, o elenco é composto de qualquer
proposição já construída que bem se apresente. Mas se algumas são
mais ricas de consequências, muitas podem ser assim reduzidas a elas
e o elenco se torna a essência. O múltiplo, o segredo do uno.
Entre opções
consideráveis, Carpeaux tem a vantagem quando se trata da escolha
entre o estilo e a época. Estabelece ele uma relação intrínseca
entre a existência do Romantismo e a Revolução Francesa: "O
acontecimento da Revolução Francesa produziu na Europa inteira - e
no continente americano - uma profunda emoção, exprimindo-se em uma
literatura de tipo emocional, que se deu a si mesma o nome de
'romantismo'". ("História da literatura ocidental",
Rio de Janeiro, Alhambra, 1987, v. 5, p. 1107).
A exposição
histórica do movimento literário segue, pois, o rumo dos
acontecimentos políticos: o romantismo assim autonomeado "foi
produzido pela revolução de 1789 e 1793; foi desviado pelo
acontecimento contra-revolucionário da queda de Napoleão, em 1815;
reencontrou o élan inicial pela revolução de 1830...".
Se Romantismo é um
termo que conota mais que um movimento literário, algo perene como
atitude espiritual, uma definição assim pareceria problemática. É
compreensível que Carpeaux não considere o romantismo algo perene,
mas ao invés o acontecimento da revolução de 1848 como o limite
intransponível da tendência emocional na literatura.
Os marcos
referenciados são bem conhecidos na história da França. 1789, a
revolução que depõe a monarquia e inicia a perseguição à
aristocracia. 1793, a democratização jacobina, promulgando a
constituição que prevê o sufrágio universal, loso seguindo-se
porém a instauração do império napoleônico.
1815, queda de
Napoleão, restauração dos Bourbons, instalando-se rei Luis
XVIII, monarquia constitucional mas refletindo o conservadorismo do
Congresso anti-revolucionário de Viena. Em 1830, transição da
monarquia a Luis Filipe, definindo a tendência liberal burguesa. 1848, tomada do governo pela Segunda República liberal,
anti-monárquica, com presidência da Constituinte de Lamartine,
Lodru-Rollin, Albert e Louis Blanc.
Seguindo-se revoltas populares devido ao resultado moderado da eleição da Assembleia constituinte, a repressão garantiu o sufrágio coletivo, porém a população logo elegendo Luis Napoleão, que a seguir restaurou o regime imperial como havia sido o de Napoleão I.
Seguindo-se revoltas populares devido ao resultado moderado da eleição da Assembleia constituinte, a repressão garantiu o sufrágio coletivo, porém a população logo elegendo Luis Napoleão, que a seguir restaurou o regime imperial como havia sido o de Napoleão I.
Ora, se considerarmos
como Carpeaux nesse volume V trata o marco de 1830, o retorno do
romantismo após o que teria sido o desvio monárquico aristocrático
de 1815, vemos como é contraditório com o volume VI, consagrado ao
Realismo.
O livro começa com a visita de Eckermann a Goethe, em 2 de agosto de 1830, portando a notícia da revolução de Julho. Goethe responde de modo aparentemente coerente à solicitação de sua opinião: "O vulcão explodiu, tudo está ardendo, já não haverá negociações atrás de portas fechadas". Ao ver de Eckermann, com efeito, trata-se de algo terrível, por ser esperável que a família real devesse ser expulsa. Então Goethe compreende, e corrige. Não falava da família real, e sim da briga de Cuvier e Saint-Hilaire na Academia.
Estava pavimentada a estrada real do Evolucionismo, o que Darwin viria universalizar. Errado do ponto de vista humanístico, Goethe revela-se porém certo num cômputo histórico geral. O Evolucionismo que a oposição aberta de Saint-Hilaire a Cuvier protagoniza, é marco histórico mais importante do que a Revolução de Julho, mas porque assim deslocando a história dos homens pela das espécies zoológicas "nas preferências da época", assim como as ciências humanas pelas ciências naturais, inaugura o Realismo que também desloca o subjetivismo pela sociologia, no romance, tanto como toda poesia pela prosa.
Enquanto o volume V referencia 1830 como o retorno do romantismo, o volume V coloca exatamente nesse momento o despontar do Realismo.
O livro começa com a visita de Eckermann a Goethe, em 2 de agosto de 1830, portando a notícia da revolução de Julho. Goethe responde de modo aparentemente coerente à solicitação de sua opinião: "O vulcão explodiu, tudo está ardendo, já não haverá negociações atrás de portas fechadas". Ao ver de Eckermann, com efeito, trata-se de algo terrível, por ser esperável que a família real devesse ser expulsa. Então Goethe compreende, e corrige. Não falava da família real, e sim da briga de Cuvier e Saint-Hilaire na Academia.
Estava pavimentada a estrada real do Evolucionismo, o que Darwin viria universalizar. Errado do ponto de vista humanístico, Goethe revela-se porém certo num cômputo histórico geral. O Evolucionismo que a oposição aberta de Saint-Hilaire a Cuvier protagoniza, é marco histórico mais importante do que a Revolução de Julho, mas porque assim deslocando a história dos homens pela das espécies zoológicas "nas preferências da época", assim como as ciências humanas pelas ciências naturais, inaugura o Realismo que também desloca o subjetivismo pela sociologia, no romance, tanto como toda poesia pela prosa.
Enquanto o volume V referencia 1830 como o retorno do romantismo, o volume V coloca exatamente nesse momento o despontar do Realismo.
A princípio,
Carpeaux utiliza-se do incidente de Goethe como exemplo de quão
alienado parecia já, em 1830, o classicismo. O volume V referencia quanto a este, que a Revolução o teria restaurado como
ao que Romantismo na verdade é a reação: "O romantismo é um
movimento literário que servindo-se de elementos historicistas,
místicos, sentimentais e revolucionários do pré-romantismo, reagiu
contra a Revolução e o classicismo revivificado por ela;
defendeu-se contra o objetivismo racionalista da burguesia, pregando
como única fonte de inspiração o subjetivismo emocional".
Lemos já aqui a mais profunda contradição. Não que o "estilo império" que demarca a
era napoleônica não tenha relações com o neoclássico. Carpeaux
localiza assim "a primeira resposta alemã à Revolução
Francesa", não na origem do estilo que Mme. de Stael importou
para a França, mas no "conformismo classicista, manifestando-se
na atitude apolítica de Goethe e no idealismo moderado de Schiller".
(V, 1108).
O que a estipulação
das datas assinala é o parentesco indissociável do romantismo e da
ascensão da burguesia, recuando com ela no interregno da
restauração. Porém como subjetivismo, a escola romântica é
inconciliável com a objetividade classicista que se desdobra na
identificação do natural com o útil, a objetividade do oportunismo
e a "recherche" do "absoluto" como unicamente o
dinheiro, tudo isso que assinala o triunfo real da burguesia quando
se trata de assimilá-la como a classe que se expressa e é
expressada na decorrência do Realismo.
Mas pode ser que não
se trate de simples contradição. O que o étimo " burguesia"
expressa como agente da revolução política em 1789 e sujeito da
emancipação econômica total em 1830, não é o mesmo significado.
A cisão é importante considerar como o sinal dos tempos. Ela já
não porta sobre o dentro e o fora, mas na imanência de uma classe
única e universal como agente dessa modernidade que é a do
capitalismo em expansão.
E também pode-se considerar que já não se
produz de modo simples, entre dois lados perfeitamente
distintos. Quem fez a revolução política, a Revolução
Francesa, satisfez tudo o que se expressou através do
pré-romantismo: "o descontentamento sentimental e o
popularismo" que se encontraram na "mística democrática
do 'instinto sempre certo' do povo". Mas já aí a primeira
cisão, pois "a Revolução não satisfaz da mesma maneira
àqueles pré-românticos, que não eram políticos, nem homens de
negócios, nem homens do povo, e sim literários, os primeiros
literatos profissionais". Quanto a estes, "logo foram
excluídos da nova sociedade burguesa, que não admitiu outro
critério de valor, senão o utilitarismo". (V, p. 1107) O que já aí não se seguiria do romantismo, mas sim do realismo.
E eis já, também, o desacordo, difícil de interpretar, dos românticos com o estilo império assim como com a pessoa de Napoleão. Para Carpeaux, "aplicar-se-ia a todos eles o apelido depreciativo que Napoleão deu aos filósofos: 'Ce sont des idéologues'". Eles responderam a seu ver criando uma literatura ideológica no sentido de Marx, como de evasão, mas também de recusa da realidade na forma da crítica frontal.
E eis já, também, o desacordo, difícil de interpretar, dos românticos com o estilo império assim como com a pessoa de Napoleão. Para Carpeaux, "aplicar-se-ia a todos eles o apelido depreciativo que Napoleão deu aos filósofos: 'Ce sont des idéologues'". Eles responderam a seu ver criando uma literatura ideológica no sentido de Marx, como de evasão, mas também de recusa da realidade na forma da crítica frontal.
Porém como se sabe,
os "ideólogos" são realmente os filósofos Aufklaerung de
que o pré-romantismo místico abomina e o Romantismo se mofa, com a "aisance" daqueles que se
apropriaram de conhecimentos novos, como mofa a estátua de Condillac que
não saberia se diferenciar a si mesma da ideia que faz da rosa desde
sua percepção sensível a mais simples, do odor da rosa. Napoleão
I não gostava do classicismo, expresso radicalmente na letra das
Luzes, mas há razões pelo visto de se considerar que ele gostava
ainda menos do pré-romantismo e dos românticos autênticos.
Mas a segunda cisão
que Carpeaux introduz, porta sobre três realidades singulares. 1830
é o marco da mudança da própria burguesia, relativamente à
revolucionária, quando "a burguesia vitoriosa traiu os ideias
do liberalismo". Balzac, como o tipo exemplar de introdução do
Realismo como Jean Paul do Romantismo, o expressou bastante
bem mas não podia ser compreendido como ruptura propriamente epocal
senão depois de 1848, quando "o medo da revolução proletária
levou os burgueses à reação aberta." A ruptura de uma época
não foi assimilada nesta mesma, e a de Balzac pode ter sido
confundida com uma transição.
A complicação do tempo se reflete na biografia de Balzac, pertencendo à "burguesia antiga", pré-capitalista, mas monarquista e católico, ainda que sem muita convicção por resumir a crença ao pessimismo acerca do egoísmo e dos maus instintos da alma humana, chegando à convicção de não haver saída para as esperanças da literatura além da corrupção pelo jornalismo: "O reacionário Balzac criando a literatura moderna: eis o paradoxo ideológico de sua obra, iluminando o conflito entre os ideais liberais e individualistas do século XVIII e as necessidades econômicas e utilitarismo do século XIX." (VI, 1401)
A complicação do tempo se reflete na biografia de Balzac, pertencendo à "burguesia antiga", pré-capitalista, mas monarquista e católico, ainda que sem muita convicção por resumir a crença ao pessimismo acerca do egoísmo e dos maus instintos da alma humana, chegando à convicção de não haver saída para as esperanças da literatura além da corrupção pelo jornalismo: "O reacionário Balzac criando a literatura moderna: eis o paradoxo ideológico de sua obra, iluminando o conflito entre os ideais liberais e individualistas do século XVIII e as necessidades econômicas e utilitarismo do século XIX." (VI, 1401)
Três faces da
burguesia, tipificadas na história francesa. A pré-capitalista que fez entretanto a revolução
econômica; a que se apossou definitivamente do poder político em
1815, mas recuando relativamente ao liberalismo; e desde 1848, é a
"grande burguesia" que empreende a aliança tácita com os
poderes "feudais - a aristocracia latifundiária e a igreja".
E por outro lado,
independente de todas três, já vimos a segregação da outra
classe, que não é porém social, política ou econômica, a dos
literatos como os românticos. Ora, apesar do anúncio da exaustão
do romantismo em 1848, agora Carpeaux considera que são eles mesmos
as vítimas dessa exclusão, não obstante não os ter antes incluído
entre os agentes instalados da burguesia revolucionária.
E junto com eles, a
aliança nova exclui todos os que ocupam lugar na burguesia
"tradicional, pré-capitalista". Ou seja, já aqui podemos
nos expressar em termos de uma cisão, sim, imanente ao mundo
burguês, entre a "pequena" e a "grande"
burguesia. Mas quando conquistamos desse modo aparentemente a
clareza, o que assoma como a grande burguesia ou poder dominante é
de fato a ressurgência da aristocracia que a ampara e seduz, contra
o fantasma que ronda a Europa - conforme os dizeres do Manifesto
Comunista - a saber, o proletariado.
Eis a cisão radical,
de toda burguesia e o proletariado, que não teve porém posição
alguma na história da literatura, nem qualquer expressão. Não
obstante o compromisso com os pobres datando desde o Romantismo, o
que eles espelham não é nada revolucionário em termos de classe,
mas a perenidade da alma popular, a de todos, que a Revolução
deveria antes salvar.
O Realismo não
altera esse fato. Nessa época, enquanto pós-romântica, ocorre a rejeição da pequena burguesia "tradicional pré-capitalista",
pela "grande burguesia' que lhe dá as costas para ajoelhar-se
perante a aristocracia supondo que esta detém os valores espirituais
que a irão redimir do insidioso parentesco com aqueles a quem
emprega emancipando da condição de servo. A remissão ideológica ocorre assim, não obstante estar se estabilizando justamente a adoção
social do estilo de vida burguês - livre das perucas dos lords e da
profusão de tecidos da ladies, de cujo rei dependem os céus e a
terra, é "a economia livre e o parlamentarismo, os trajes
masculinos mais sóbrios, sem qualquer vestígio de pitoresco, a
prosa de casaca e cartola, a prosa dos negócios e a prosa da
literatura". (Carpeaux, 1397, v. VI).
Mas a
intelectualidade que produz o Realismo, faz da classe sacrificada que
não é porém a aristocracia, mas o contrário, não sendo contudo
tampouco o proletariado, o objeto de unção, sobretudo por um teatro
que deve enaltecer-lhe as virtudes: Scribe e Augier na França,
Gutzkow na Alemanha, Echegaray, o anti-poeta segundo a indignada
geração simbolista de 1898, na Espanha. Mas o próprio Flaubert -
bastante antipático a todos e a tudo que não seja "útil",
e cujo sentimento é já uma pedagogia do Realismo em pessoa -
considera Augier um sujeito antipoético, segundo Carpeaux. A
objeção em geral "atinge todas as tentativas de basear a
crítica social no teatro nos conceitos da moral burguesa."
(VI, p. 1403)
Mas assim como se
poderia caracterizar o romantismo, paralelamente à cronologia da
revolução que Carpeaux estabeleceu como a sua própria, se não o
burguês revolucionado, que não o admitiu como o glorificador das
utilidades deste mundo? De resto, não surpreende a aliança da
grande burguesia com a aristocracia após 1848, se desde o início,
devemos lembrar, Carpeaux insistiu na Revolução como elemento que
revivificou o classicismo.
O que surge como
mistério é pois o "pré-romantismo" em termos de fermento
ao mesmo tempo revolucionário e totalmente avesso ao espírito
clássico do Aufklaerung. Ora, o que pareceu sobremodo estranho como
o classicismo geoetheano a título de exemplar numa Alemanha do Sturm
und Drang aos irmãos Schlegel, Carpeaux corrige logo. Esse foi um
primeiro reagir, que não podia porém dar certo num país onde
poucos sabiam latim e ninguém sabia grego, e onde todos, depois de
ter lido Rousseau, se comoveram profundamente com o Werther, não
aceitando portanto a mudança do próprio Goethe, assim como a de
Schiller.
O romantismo alemão
tem como ponto de partido efetivamente o pré-romantismo, mas não o
inglês, que é contra-revolucionário, nem o francês, cujo ponto de
partida é pré-revolucionário - na classificação de Carpeaux.
(V, 1108)
Assim pré-romântico
e pré-revolucionário não são exatamente a mesma coisa, e do mesmo
modo a burguesia deixava de ser liberal em 1830, mas sendo este o
ano da "Batalha d'Hernani", de Hugo, declaração romântica
oficial de guerra ao classicismo na França. Desde Hugo, pois, o
Romantismo francês expressa-se como porta-voz do socialismo que Marx
mais tarde designará utópico, pois justamente não uma razão da
história em termos de classes sociais.
Porém antes do
Manifesto Comunista e do determinismo da produção que define as
classes segundo a perspectiva da Economia Política de Marx, a realidade
mesma não tem designação auto-constituída nesses termos. Uma
pesquisa que começasse por indagar a propósito da auto-compreensão
das partes antagonistas ou confluentes num conflito cuja profundidade
extrapola as condições ordinárias do que assim se define, já que
transformando as próprias condições da definição, estaria menos
exposta à incompreensão devida porém não à falta, mas ao excesso
da informação erudita.
E isso é tanto mais
demonstrável que se por um lado o socialismo francês anterior à
Marx tem grande repercussão em todos os meios, se é hugoano o nosso
condoreirismo latino-americano que tanto lutou pelo nacionalismo,
contra a escravidão e o império, assim se expressa Carpeaux: "O
desconhecimento do marxismo pela burguesia", na época de
eclosão do movimento antipoético a que se designa Realismo,
"correspondia à divulgação muito limitada do marxismo no
próprio proletariado, incapaz de abraçar o socialismo científico
porque ainda não tinha consciência de classe".
Nessa trama
complicada, é compreensível que, quando se trata de explicar o
retorno da poesia após o Realismo, os motivos dessa ultrapassagem
não correspondendo já a qualquer alteração da consolidada
burguesia como classe dominante em todas as frentes, econômicas,
sociais e políticas, Carpeaux só tangencie o cenário histórico
lá pelo meio do volume VII que versa sobre o Simbolismo. Ao
contrário pois do modo como inicia os dois consagrados ao Romantismo
e ao Realismo. Ora, a princípio, o simbolismo é reação contra a
antipoesia que por sua vez emergiu na ultrapassagem realista do romantismo - o
fenômeno que como vimos ficou bastante lacunar do ponto de vista da
compreensão de época. Quanto ao simbolismo, pois, limita-se a um
movimento de motivação puramente estética, visando como seu "papel
histórico... o restabelecimento da verdadeira poesia". (p.
1709, v. VII).
Não é preciso definir a movimentação politica e econômica ou a luta de classes
para apresentar os principais representantes do Simbolismo, o que é
bem o contrário quando se trata de Romantismo e Realismo. E quando
Carpeaux volta-se a essa movimentação, vemos que as consequências
propriamente literárias são nulas.
O acontecimento
histórico é ainda transformação da burguesia, mas agora não
ideológica ou política, e sim exclusivamente econômica. Pois,
tratando-se do abandono do liberalismo, já havia sido feito do ponto
de vista político pela aliança com a monarquia, e, depois, com a
ideologia aristocrática. O liberalismo ultrapassado agora é o dos
Smith e Ricardo, ou seja, econômico. Inicia-se a era dos trusts e
cartéis, e Carpeaux preenche toda uma página do seu volume VII, com
os nomes e as datas dos carteis históricos que surgem nessa época.
Considera que essas datas coincidem com os principais acontecimentos
da história do simbolismo, em seguida porém relacionando-as à
"conquista de mercados novos, sobretudo na América Latina, onde
começa grande luta dos imperialismos econômicos", e às datas
de fundação dos principais movimentos trabalhistas europeus.
Consequentemente, se "o capitalismo, transformando-se de
capitalismo industrial em capitalismo financeiro, abandonou a
doutrina do livre-câmbio, da liberdade dos mercados internacionais,
abraçando o protecionismo", com a lei Mac Kinley ultrapassando
nos Estados Unidos tudo o que nessa época se fazia nesse sentido na
Europa desde Bismark, a cisão da burguesia em "grande" e
"pequena" já não basta para definir os contornos do
antagonismo social real. Assim, "na 'fin de siècle', a
burguesia tornar-se-á antiliberal e reacionária; e o lugar do
radicalismo será ocupado pelo proletariado organizado" (p.
1800;1, v. VII). Ora, não é porém o proletariado que protagoniza o
literato simbolista e os intelectuais que o compreendem. Conforme
Carpeaux, "a situação é de guerra entre o capital monopolista
e o proletariado organizado. Quem parece excluído do futuro são os
filhos da classe média, a pequena burguesia, inclusive os intelectuais", exclusão
que se agrava em países recém-industrializados, os "países
'marginais', os novos centros da poesia simbolista".
Logo, conforme Carpeaux, "o simbolismo é a literatura dessa classe sem fundamento econômico na sociedade", a pequeno burguesia ou classe média, algo assim como os intelectuais de 1800 que criaram o romantismo". Que diferença pode-se desse modo atribuir a qualquer das três exclusões até aqui recenseadas, todas porém que definem a situação do literato como do intelectual?
A lacuna que visamos antes, não se esclareceria aqui, nessa coincidência total do antes e do depois do Realismo, assim como do estatuto de excluído que a este último porém inclui, sem paradoxo.
Logo, conforme Carpeaux, "o simbolismo é a literatura dessa classe sem fundamento econômico na sociedade", a pequeno burguesia ou classe média, algo assim como os intelectuais de 1800 que criaram o romantismo". Que diferença pode-se desse modo atribuir a qualquer das três exclusões até aqui recenseadas, todas porém que definem a situação do literato como do intelectual?
A lacuna que visamos antes, não se esclareceria aqui, nessa coincidência total do antes e do depois do Realismo, assim como do estatuto de excluído que a este último porém inclui, sem paradoxo.
Carpeaux de fato não
o faz, mas apenas introduz uma diferença contraditória com o
situamento da exclusão do literato Realista por sua pertença
ideológica a uma burguesia passadista, contudo como vimos tendo antes definido Balzac como o porta voz da burguesia nova. Agora, conclui que no
Realismo, a poesia parnasiana - que não é poesia na verdade -
podia ser praticada por aqueles que não estavam excluídos de todo,
uma vez que a exclusão "da "economia social" não
significava exclusão das "comodidades da burguesia antiga",
fossilizada pela concessão de sinecuras em postos graduados de
museus, bibliotecas e na diplomacia.
Na era simbolista, o recurso
já não era reconhecível para uma classe de literatos que se sentia
perdida no mundo, mesmo entregues alguns à vagabundagem.
E se a literatura
se deixa contaminar pelo gosto geral dessa "era dourada"
do capitalismo, quando "a sociedade em geral enriqueceu cada vez
mais", cultivando um esteticismo e preciosismo que poderia
lembrar a l'art pour l'art parnasiana, já está porém, conforme
Carpeaux, "minada" pelo sentimento de insegurança.
Mas não devíamos
antes que a uma identificação de classe pequeno burguesa, associar
os parnasianos l'art pour l'art e gosto pela curiosidade de
antiquário a que se havia reduzido a história na era da Sociologia,
ao movimento aristocratizante da burguesia como um todo? Asim na
acepção do que já não pressupunha qualquer índole
revolucionária, dado que nenhuma mudança real devia permanecer
desejada por uma classe já estabilizada como dominante.
É interessante que na
Alemanha especialmente, o Realismo como pioneira inclusão temática
da realidade qualquer na literatura, e assim desdenhando a omissão
de detalhes pouco edificantes naquilo que acontece a qualquer um,
tenha sido detestado pela aristocracia aburguesada, capitalista,
dominante na Alemanha que não conhecera por sua vez qualquer
Revolução como a Francesa. Além disso, o Realismo como o concebo
- a fricção do senso comum do personagem que crê na sua
consciência ingênua com o determinismo científico atuante na realidade, que
conhece o narrador onisciente - é de fato o ostracismo da "história"
como sentido cultural imanente. Economia Política ou Sociologia, Evolucionismo darwinista adaptado ao social como novo racismo e ao preconceito da tara hereditária, são os objetivismos, os motores da história que sucedem o que doravante se designa pejorativamente "historicismo" limitado aos acontecimentos, ignorante das causas. Na era do simbolismo começa-se a demolir o objetivismo dos realistas, mas de fato alguns pressupostos permanecem mesmo na era modernista, o pós-positivismo pleno. São eles a centralidade da ação e a ojeriza à metafísica.
Ao invés do senso
comum crítico-literário, pelo qual não houve qualquer
Realismo na pátria do idealismo romanticista originário, Carpeaux
registra a atuação da severa censura de Estado que instituiu por
decreto um Romantismo "Biedermeyer", este o nome do regime prussiano à época do Realismo europeu. Um regime composto pelo controle ideológico rigoroso a encargo da polícia política e aos departamentos de censura federal, juntamente com a prosperidade simplória das famílias, na época dos fraques azuis e das crenolinas brancas. O romantismo biedermeyer de fato não tem
nada do originário - se quanto a este era nacionalista, militante
contra os impérios mas assim como contra a generalidade sobre o
indivíduo.
Mas agora, com o
Simbolismo, realmente concede Carpeaux que um simbolismo como o
austríaco, afrancesado, era impossível na Alemanha, onde se chamava
de louco a poetas desse movimento quando deles se tinha alguma
notícia. Não obstante, Schopenhauer é o pivô do decadentismo
simbolista em todo o mundo, e assim dele surge a possibilidade do
estilo alemão, de Burkhardt que criou a Renascença pela renovação
do método histórico, e seu discípulo Nietzsche, que fez o mesmo
com a Grécia.
Não obstante a
concepção contrária ao Realismo, concepção que tanto fez pela
arte de Wagner na Alemanha, não parece haver incompatibilidade de
fundo com a burguesia ascendente. Assim também Carpeaux nota que os
literatos como Balzac, realmente acreditavam na natureza muito humana
do capitalista - e por isso não eram "humanistas". Além
disso, logo se tornaram vistas como contraditórias a propaganda do
individualismo e a recusa do capitalismo.
Mas o simbolismo não
crê de outro modo, apenas situa a evolução ao indivíduo da livre
iniciativa como um resultado ainda não de todo definido. É o
determinismo que estava ruindo por toda parte, na decorrência da
máquina de Carnot, da descoberta do comportamento dos corpos
radiantes e de tantas evidências cientificas contrárias ao senso
comum racional assim como Cournot e muitos outros então recenseavam.
A associação da
burguesia com a aristocracia não precisava ser reconciliação onde
não houve ruptura traumática, à exemplo da maioria dos países
europeus, como Inglaterra e Alemanha, mas sim resultado natural da
cisão de classes econômicas, de modo que a novidade histórica real
é o proletariado - já não "servo", porém de nenhum modo
"senhor".
O Romantismo, pois, não
pode ser explicado pelo fato da Revolução Francesa. E tanto mais
que desse modo não se entenderia, a não ser como radicalização
reativa, qualquer irredutibilidade dele ao pré-romantismo.
Constatamos porém que
a indefinição da história aqui coincide com o fato de ser aqui
mesmo o lugar do nascimento da história (como ciência), e assim dos problemas que
ela coloca enquanto não a definição simples, mas a questão mesma,
de tudo o que está conceitualmente em jogo na disposição das
rubricas concernentes aos fenômenos que estamos considerando.
Entender o trajeto do
Pré-romantismo ao Romantismo é pois colocar basicamente a
interrogação a propósito da emergência da História, como da
mentalidade que permitiria sequer colocar a pretensão de poder conceituá-lo.
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Um modo de aclarar a questão das relações do "pré"- ao "romantismo" é o exame do pensamento efetivo da época. Se o tema do misticismo parece ser basicamente referencial ao pré-romantismo, Schelling como o filósofo romântico por excelência tem nesse cromo a sua caracterização. O percurso filosófico de Schelling seria portanto interessante ao nosso estudo.
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Um modo de aclarar a questão das relações do "pré"- ao "romantismo" é o exame do pensamento efetivo da época. Se o tema do misticismo parece ser basicamente referencial ao pré-romantismo, Schelling como o filósofo romântico por excelência tem nesse cromo a sua caracterização. O percurso filosófico de Schelling seria portanto interessante ao nosso estudo.
1) Uma Filosofia em
Evolução
Entre as introduções
ao estudo de Schelling, de E. Bréhier (Histoire de la philosophie, texto de internet, "le dix-neuvième siècle"", cap.VIII, "Schelling et les romantiques"), e A. Philonenko (A. F. W. J. Schelling", in Chatelet, F. Histoire de la philophie, Paris, Hachete, 1973, v. 5) , uma
contradição se demarca. Será visto que ela não deixa de ter
sua razão de ser.
Conforme Bréhier,
após a publicação da "Filosofia da arte", em 1803,
Schelling publica muito pouco, salvo dois opúsculos importantes. O
título referenciado aparece quando Schelling já se contava como
filósofo reconhecido da escola romântica. Havia então publicado
seis exposições sistemáticas do seu pensamento, começando em 1898
quando tinha vinte e três anos, dentre os quais o conhecido "Bruno"
(1803). Um início surpreendente, não menos que seis títulos em
cinco anos, porém ardor juvenil que não dura. Os seus cinquenta e
um anos seguintes são de elaborações intensas, escrita e pensante,
sem repercussão editorial imediata. Os dois opúsculos registrados
são o "Filosofia e Religião" (1804), e "Philosophische
Untersuchungen über das Wesen der menschlichen Freiheit"
(1809).
A esse percurso que sugere recolhimento e interiorização, a leitura de
Philonenko permite ajuntar coerentemente dois fatos biográficos
decisivos, após o período de glória que Schelling conhecera na
altura dos trinta anos, assim como nas cátedras ocupadas em Munique
e Erlangen.
Esses dois fatos são,
primeiro, a perda de Carolina, com quem Schelling havia casado após
ter ela se separado de W. Schlegel. O papel importante dela no cenário
intelectual do pós-kantismo é bem conhecido. Schelling casou-se
novamente, porém não sendo feliz como
antes.
E o segundo
acontecimento biográfico decisivo foi, na velhice, a ocupação por
Schelling da cátedra de Hegel em Berlim. Sinecura estratégica do
regime alemão para evitar a propagação do realismo materialista
que os seguidores de Hegel, os "jovens hegelianos", de
Feuerbacha a Marx, haviam já constituído por adaptações
históricas - conforme Philonenko, especialmente da "Filosofia
do Espírito".
Carpeaux comenta efetivamente que Hegel havia sido, a seu ver contraditoriamente com o viés dialético intrínseco ao pensamento dele, alçado depois de Napoleão a filosofia oficial do absolutismo alemão, cuja fórmula é a concessão da liberdade de pensamento em troca da renúncia à liberdade política.
Mas a sucessão de Hegel acarretou a preferência na universidade por Eduardo Gans, que refletia a tendência materialista da filosofia do próprio Hegel. Os "jovens hegelianos" são o grupo de novos pensadores que ampliaram essa base materialista, entre eles inclusive Marx. Conforme Carpeaux, "agora" Hegel "já não podia ser considerado a filosofia oficial da Prussia", e a decisão do rei para contrapor-se ao movimento foi chamar Schelling para ocupar a cátedra de Hegel. Carpeaux faz coro aqueles que consideram todo o pensamento posterior derivado de Hegel, nas suas três interpretações possíveis, de esquerda via Marx, democrática ou fascista. Como vimos, Carpeaux tende a interpretação marxista. A seu ver os três ramos da filosofia de hegel são o histórico, o dialético e o absolutista. O histórico, como em Croce ou Dilthey, o totalitarismo fascista ou a dialética marxista.
Mas a sucessão de Hegel acarretou a preferência na universidade por Eduardo Gans, que refletia a tendência materialista da filosofia do próprio Hegel. Os "jovens hegelianos" são o grupo de novos pensadores que ampliaram essa base materialista, entre eles inclusive Marx. Conforme Carpeaux, "agora" Hegel "já não podia ser considerado a filosofia oficial da Prussia", e a decisão do rei para contrapor-se ao movimento foi chamar Schelling para ocupar a cátedra de Hegel. Carpeaux faz coro aqueles que consideram todo o pensamento posterior derivado de Hegel, nas suas três interpretações possíveis, de esquerda via Marx, democrática ou fascista. Como vimos, Carpeaux tende a interpretação marxista. A seu ver os três ramos da filosofia de hegel são o histórico, o dialético e o absolutista. O histórico, como em Croce ou Dilthey, o totalitarismo fascista ou a dialética marxista.
Vemos desse modo que a providência imperial contra os jovens hegelianos teve resultado nulo. Com efeito, os cursos de
Schelling na cátedra de Hegel não tiveram audiência e ele
abandonou a universidade, ocupando-se apenas com a organização dos
seus escritos e aperfeiçoamento do sistema que então abraçava como
definitivamente o seu.
Porém Philonenko
não considera que, quanto ao número de publicações em vida, se
limitaram ao que vimos registrar Bréhier. Pelo contrário, de início
observa que Schelling se singulariza tanto por sua "grande
precocidade", como por sua "extraordinária fecundidade".
(op. cit. p. 99). Ele tem vinte anos apenas quando publica sua
primeira obra, em 1794, intitulada "Da possibilidade de uma
forma da filosofia em geral", mas desde aí até 1815, "ele
publica a cada ano ou quase, importantes escritos", dentre os
quais o autor cita oito títulos designados "célebres".
Que razão
poderíamos divisar nessa contradição observável das fontes? Em
Philonenko se expressa o que está apenas visível na cobertura de
Bréhier a propósito dos anos referenciados como os de publicações
contínuas. Trata-se da profusão das mudanças de orientação. Se
bem que números de edições sejam matéria documentável, essas
mudanças tornam a reconstituição do percurso de Schelling muito
dependente da liberdade do intérprete.
Com efeito, Philonenko cita a propósito o estudo de Jasper sobre Schelling, testemunhando a tendência deste a mudar constantemente de ideia a propósito de tudo, "e não somente suas ideias evoluem, mas os problemas que ele se coloca variam completamente. Nenhuma outra doutrina, nem mesmo a de Platão, aparece a primeira vista mais dinâmica e mais inacessível." Não há de fato, dentre os muitos títulos que perfazem a obra entre projetos sistemáticos, cartas, diálogos, discursos, dissertações, críticas ensaios, qualquer um que possa ser considerado o "trabalho fundamental". (p. 101)
Com efeito, Philonenko cita a propósito o estudo de Jasper sobre Schelling, testemunhando a tendência deste a mudar constantemente de ideia a propósito de tudo, "e não somente suas ideias evoluem, mas os problemas que ele se coloca variam completamente. Nenhuma outra doutrina, nem mesmo a de Platão, aparece a primeira vista mais dinâmica e mais inacessível." Não há de fato, dentre os muitos títulos que perfazem a obra entre projetos sistemáticos, cartas, diálogos, discursos, dissertações, críticas ensaios, qualquer um que possa ser considerado o "trabalho fundamental". (p. 101)
Mas se é assim,
torna-se questionável a utilização do método da divisão em
períodos para caracterizar as mudanças, não obstante o próprio
Schelling, nas "Lições de Munique" (1827), ter se
expresso em termos de um primeiro momento fichteano, relativamente ao
qual a sua intuição original da "filosofia da natureza"
foi a subsequência, e a ulterior "filosofia da identidade", a concepção que verdadeiramente se fez.
Na proposição de
Philonenko, perante as contradições que se multiplicam em Schelling, ora
entre as versões da sua doutrina das potências conforme as
sucessivas "filosofias", ou entre as suas notas
biográficas, "numa breve característica do seu pensamento não
é possível pretender fazer mais que divisá-lo em diversos
períodos, dos quais nos esforçamos em mostrar senão a unidade, ao
menos o encadeamento".
Não seria porém
mais adequado, inversamente à redução narrativa a um tempo linear,
considerar os múltiplos fios dessa consciência, que como uma corda
sempre mais encorpando-se, se estende com alcance sempre maior, ao
modo de um olhar que conquista progressivamente seu horizonte? Esta
seria até uma perspectiva mais coerente com o que descobriu a nossa atual psicologia, forçada por diversas decepções a renunciar
a qualquer apoio à tradicional visão do fluxo da consciência como os aros igualmente sólidos de uma corrente, para justamente a considerar como a corda resultante do entrelaçamento dos fios.
A progressão
cronológica de fato não ajuda muito aqui, conforme o que o próprio
Philonenko testemunha. O período inicial que Schelling reporta como
tendo sido o de sua intenção, a seu ver adequada à idade muito
jovem, de apenas apresentar o mais autenticamente a filosofia de
Fichte, já apresenta acentuada originalidade, como Metzger
insistiu. Assim torna-se compreensível que, conforme Philonenko,
"no interior mesmo desse período que vai de 1795 a 1800
aproximadamente, se desenvolve um segundo período, aquele da
filosofia da natureza". Assim de modo que a princípio esta não
se apresenta na sua total autonomia relativamente ao fichteísmo, o
que só ocorre bem mais tarde não obstante não haver de fato
comensurabilidade entre essa perspectiva objetiva, centrada na
exterioridade do mundo, e o sistema fichteano do eu absoluto.
A estabilização de
uma cronologia a partir daí, na apresentação de Philonenko, é
inteiramente contraditada pela estimativa de Bréhier. Conforme
Philonenko, a filosofia da identidade não é um terceiro período,
mas sim só ao que a filosofia da natureza como uma física
especulativa conduziu por si mesma. O terceiro momento se demarca
somente após, com o artigo "Filosofia e Religião". Está
caracterizado pela problemática moral e religiosa, e a ele se segue
um quarto período, de pensamento metafísico avesso à realidade
empírica.
Um quinto e
definitivo momento expressa o contexto místico do pensamento de
Schelling, que começa com a "Pesquisa sobre a natureza da
liberdade humana" (1809), cujos delineamentos perfazem o que se
designa habitualmente a teosofia de Scheling. Tem sua apoteose porém,
conforme Philonenko, na filosofia da mitologia e na filosofia da
religião.
Bréhier traça um
percurso de todo irredutível. O primeiro período é o da filosofia
da natureza e esta mesma comporta o sentido da teosofia, que porém
não é original a Schellling mas o que ele empresta ao tempo,
restituindo porém contribuições originais utilizando-se de
informação científica - assim o filósofo romântico começa por empréstimo ao pré-romantismo.
Na progressão dessa sua filosofia primeira, é que aparece a Schelling a impressão de uma semelhança possível dela com o conteúdo da "doutrina da ciência" de Fichte, que é independente do nome um subjetivismo absoluto. Longe de querer apenas parafrasear Fichte, Schelling pretende experimentar a substituição da natureza ao Moi fichteano, posto que como este, ela parece bem "como atividade infinita que se afirma colocando o seu oposto (como na dinâmica kantiana, a forma expansiva é oposta à força repulsiva), e que é infinita ao restabelecer sem fim o equilíbrio que ela tinha destruído". A ideia é fazer da filosofia da natureza a aplicação do sistema fichteano da ciência.
Na progressão dessa sua filosofia primeira, é que aparece a Schelling a impressão de uma semelhança possível dela com o conteúdo da "doutrina da ciência" de Fichte, que é independente do nome um subjetivismo absoluto. Longe de querer apenas parafrasear Fichte, Schelling pretende experimentar a substituição da natureza ao Moi fichteano, posto que como este, ela parece bem "como atividade infinita que se afirma colocando o seu oposto (como na dinâmica kantiana, a forma expansiva é oposta à força repulsiva), e que é infinita ao restabelecer sem fim o equilíbrio que ela tinha destruído". A ideia é fazer da filosofia da natureza a aplicação do sistema fichteano da ciência.
Porém o
empreendimento logo revela exigir afastamento da intuição mistica
na qual originariamente sua filosofia da natureza pretendera resolver
-se, e é como retorno ao projeto inicial que Schelling esboça a
sua filosofia da identidade, na altura de 1803. Assim Bréhier
posiciona Schelling, nesse percurso inicial, como alguém que
sobrepõe a mística de Saint-Martin à doutrina da ciência de
Fichte.
Até aqui, pois,
temos duas tendências apenas. A original, de coloração mística,
que comporta porém dois momentos distintos como das elaborações da
filosofia da natureza e da filosofia da identidade. E a tendência
que entre ambas se fez como o interregno da interlocução com o
pensamento de Fichte. Essa tendência leva ao segundo momento, que é
porém retorno ao inicial, porém com um acréscimo importante.
Ao desenvolver a filosofia da identidade, após ter acrescentado uma filosofia da história e para melhor preencher lacunas constatadas na conscienciologia pura de Fichte - por assim aqui expressar - Schelling aporta a uma teoria teleológica da natureza e a uma importante teoria da arte. Mas assim não houve até então ruptura constatável como de períodos distintos em termos de objetivos diferentes. Houve apenas, na extensão histórica da filosofia da identidade, o revesamento de outro elemento de justaposição à influência vinda de Fichte, desta vez Herder. Com o acréscimo de algo mais, o elemento original da teoria da arte em Schelling.
Ao desenvolver a filosofia da identidade, após ter acrescentado uma filosofia da história e para melhor preencher lacunas constatadas na conscienciologia pura de Fichte - por assim aqui expressar - Schelling aporta a uma teoria teleológica da natureza e a uma importante teoria da arte. Mas assim não houve até então ruptura constatável como de períodos distintos em termos de objetivos diferentes. Houve apenas, na extensão histórica da filosofia da identidade, o revesamento de outro elemento de justaposição à influência vinda de Fichte, desta vez Herder. Com o acréscimo de algo mais, o elemento original da teoria da arte em Schelling.
Uma mudança em
nível decisivo de objetivos, pelo que se poderia falar de um segundo
período, ocorre somente desde 1804, realizando-se plenamente em
1809. Aqui Schelling abandona o objetivo de sua filosofia pretérita,
que em geral seria do Absoluto, e se encaminha a um pensamento da
liberdade que ao ver de Bréhier só pode se expressar
dramaticamente, ao invés de por dedução conceitual. Fase
existencialista, de um pensamento que é revelação cósmica da
criação a partir de um Deus tão inteiramente livre que alcança
progressivamente o estatuto da sobredeidade (uebergottheit) que é a
natureza como síntese de sua vontade atuante sobre as potências que
assim consentem tornar-se expressões dela.
Schelling o expressa
por meio do que efetivamente me parecem mais como sucessivas
teogonias. Porém as personificações dos princípios naturais por
deidades, típicas do gênero antigo em que Hesíodo é modelar, aqui
são das potências que ordenam os reinos biológicos até o
organismo, e o que Schelling imagina serem suas características
principais. Ele transforma o que havia sido sua filosofia da
história numa reordenação mitológica sem precedentes, e é assim
que muda o que havia posicionado em termos do que antes já
designara potências.
Mas o objetivo real
dessa segunda fase, contradizendo um pouco a concepção de Bréhier
de que nela Schelling "já não deduz, ele narra"
("raconte"), é a meu ver a ontologia como ato de ser. O
que transforma o que havia sido a filosofia da história num
existencialismo da queda, pela qual contudo os seres vem ao estatuto
de ser e encontram assim o sentido imanente ao seu devir.
O que Heidegger no
Nietzsche 2 censurou a Schelling - estipular uma "razão de ser"
quando se trata da liberdade existencial - independente do
ingrediente de misticismo que ele nunca põe de lado pode não ser
algo algo tão ingênuo e precipitado. Mas sim, ao invés de
condição, uma intenção de posicionar a gênese da liberdade num
Real que, para bem ou mal na era da ciência, já só se resolve em
objetividade natural. E mesmo quanto àquele ingrediente, Bréhier
reconhece que, como mitologia, "se tornava agora um pouco o que
é a nós o estudo sociológico das religiões primitivas",
desde que Schelling se fez influenciado pelos desenvolvimentos
concomitantes de Creuzer, este inspirado em Görres.
A terminologia do ato
de ser das almas parece neoplatônica - e sabemos que a fase tardia
do fichteísmo foi de fato neoplatônica, mudança relativamente à
sua doutrina anterior. Na verdade a questão existencial de
Schelling se torna o futuro, como pensamento da evolução. Algo que
torna expressivo o modo de ser cambiante e fugidio, em devir porém
como que em torno de um centro motivador, do próprio percurso
shellingniano.
2) Os Temas e as Figuras
Até aqui nos
detemos em aspectos do pensamento de Schelling apenas enquanto
pertinentes ao problema de se estabelecer o que seria um percurso, a
partir do conhecimento de mudanças importantes ao longo de sua
carreira, de modo que pudéssemos lhe atribuir conceitos não a esmo.
Se Bréhier e Philonenko não concordam quanto à caracterização do
percurso de Schelling, vejamos como se posicionam quanto ao conteúdo
daquilo que estabelecem.
Bréhier situa o
primeiro período de Schelling em Leipzig e Iena, a meca do
romantismo então emergindo com força impressionante. Ele o
caracteriza apenas pela intuição da filosofia da natureza, em que a
hierarquia das potências naturais desde as inferiores até a orgânica,
e a arte, são os conteúdos da meditação. Bréhier registra que
Schelling leu Jacob Boehme em 1803 e travou por essa época relações
com Baader. Estavam bem presentes as influências do misticismo
pré-romântico a exemplo de Saint-Martin, famoso como "o
filósofo desconhecido", e desde aqui Bréhier se concentra na
exposição da filosofia da natureza deste último, que é porém por
si mesma uma teosofia. É aos elementos que divisa aí que, em
seguida, acresce o que seria apenas a contribuição de Schelling.
Bréhier nesse ponto
não se espanta de que a filosofia da natureza tenha se convertido em
teosofia na condução de Saint Martin, comentando que essa evolução
se mostra ao invés bem tardia, sendo esperável há muito. O que
espanta pois, a seu ver, não é a evolução do pensamento de
Schelling nesse sentido, mas o atraso dessa trajetória do natural ao sobrenatural.
Em Saint-Martin os
elementos da filosofia natural são o que podemos reconhecer da
doutrina das razões seminais do estoicismo. Os corpos materiais
mudando continuamente, são produtos de germens invisíveis,
indestrutíveis e imutáveis. Bréhier localiza em Paracelso e na
física jônica, pré-socrática, pela noção do Logos regulador dos
contrários, também a concepção pela qual em Saint-Martin a
natureza tem uma potência infinita de rejuvenescimento graças ao
restabelecimento do equilíbrio entre duas forças opostas, assim que
uma delas prevalece sobre a outra. Acima do materialismo das razões
seminais, porém, o preceito teosófico martiniano predica uma
realidade independente e divinizada, de modo que os corpos se tornam
simples instrumentos das forças imateriais.
Schelling, já em
1797, em seu "Ideias para uma filosofia da natureza",
coloca o oxigênio na posição do elemento que preside as forças
contrárias regulando o equilíbrio, o que Paracelso definia como o
mercúrio. O oxigênio se torna esse elemento devido à ação
química, vista como essencial, da combustão. O mundo animal
corrompe e o mundo vegetal restitui o oxigênio, continuamente. Um
ano depois, em "A alma do mundo", Schelling muda a
definição da alternância de forças para a polaridade de tipo
eletromagnético.
A luz solar e o
oxigênio são agora opostos em seu produto comum, o ar vital, como
eletricidade positiva e negativa. O oxigênio se opõe por sua vez ao
flogístico como o positivo ao negativo, e a combustão é a união e
o retorno do equilíbrio destes termos opostos.
Por ritmos sucessivos
de respiração e nutrição, que dependeriam respectivamente de
oxigênio e flogístico, os seres vivos rompem e restauram
continuamente o equilíbrio. Nos seres inorgânicos há apenas a ação
das duas forças opostas, mas os seres orgânicos apresentam uma
potência superior a ambas, que delas se serve como instrumentos e as
inflete de modo a manter a vida.
A ciência da época
- quando ainda se acreditava no flogístico como elemento da
combustão - foi assim por Schelling destacada do seu progresso
imanente e aplicada à filosofia da natureza de gênero místico por
adequada ao desdobramento teosófico. Eis em que Bréhier vê o
fenômeno do atraso.
De fato a exposição
de Bréhier logo em seguida parece inverter o sentido dessa dedução,
comentando a semelhança entre "A alma do mundo" e a
descoberta do galvanismo ou eletricidade por Ritter (1797), que conceituou os corpos
como sistema de cadeias galvânicas inumeráveis e infinitamente
pequenas, assim como o universo seria um grande animal, os corpos
celestes os corpúsculos sanguíneos, a via láctea, os músculos, e
o éter o fluído nervoso.
Carpeaux registra o
papel de Henrick Steffens, como divulgador e apóstolo da filosofia
de Schelling, por meio de quem se propagou a influência de
Schelling entre cientistas naturais. Para Carpeaux este é o caso de
W. Ritter, que em Die physik aks Kunst (1806) efetivamente
"interpretou a atração e repulsão dos polos elétricos como
fenômenos de amor e ódio instintivo", assim "sugerindo a
Goethe a ideia das Wahlverwandertschaften, das 'afinidades eletivas'
". (p. 1120)
Carpeaux não
limita a Ritter a influência de Schelling na ciência da época.
Reporta a influência da filosofia de Schelling na construção de um
sistema de biologia panteísta por Lorenz Oken (Abriss der
Naturphilosophie, 1805). Bréhier contudo registra que Oken, a partir
do seu Die Zeugung (1805), pressentindo a estrutura celular do
organismo, se tornou bastante hostil à teosofia Schelling, porém
mantendo um panteísmo vizinho do de Bruno - o epônimo do Diálogo
em que Schelling celebrizou sua filosofia.
Também segundo
Bréhier, o médico Ringseis, nomeado Diretor Geral da Saúde da
Baviera, "submeteu o país" atônito, às "normas de
uma medicina 'cristã'". Mas a relação de ciência e
filosofia mística não se restringe à penetração do
schellingnismo. Conforme Carpeaux, de fato, "uma nuvem de
ciência fantástica envolveu a Alemanha" à época de
Schelling. Carpeaux informa assim a importância do mesmerismo que
"foi praticado pelos médicos mais sérios e por leigos
levianos". (p. 1121)
Conforme Bréhier, a
noção bem própria da época, de algo unindo todos os seres,
inspira a Mesmer a ideia de um fluido universal que explicaria o
magnetismo animal. Este pelo que, como se sabe, permitiria a
manipulação hipnótica, pois "mesmerismo" é um sistema
de hipnotismo terapêutico que precede o que desde o nascimento da
psicopatologia já em princípios do século XX se considera
científico em medicina, o de Charcot, professor de Freud.
Com efeito,
Carpeaux acentua o papel de G. H. Schubert que, como explorador do
"lado noturno da natureza", teria antecipado descobertas de
Freud e inspirado a literatura do fantástico romântico, por suas
investigações do sonambulismo e hipnotismo. Na vertente do
enunciado romanticista do Inconsciente, é mais comum a referência a
Carus, que Carpeaux engrandece como poeta, escritor e
médico que na filosofia da natureza, pela lei da polaridade, enunciou
movimentos do inconsciente, assim também sendo precursor de Freud
(p. 1183). Bréhier atribui já aí uma teoria do inconsciente relacionada ao fenômeno da memória. O referencial da naturphilosophie sendo porém,
Goethe, e insistindo-se no caráter indistinto dela, entre ciência,
poesia e misticismo.
Mas, ao que parece,
podemos afirmar entre as teorias que se consideram científicas na
época, a concepção da natureza como um todo, contendo alguma
propriedade que subordina as partes. E nesse aporte podemos designar
a naturphilosophie como metodologia científica na transição ao
século XIX, cenário de emergência do Evolucionismo. É Darwin, ao
inserir um componente de puro acaso seletivo, na Evolução, que se
considera o limite formal da naturphilosophie, porém mesmo assim a
concepção do todo coerente perdura até princípios do século XX,
quando a autonomia da parte se torna axiomática. Aí temos a cisão
de psicologia e biologia, que se torna total com a preponderância do
sistema nervoso central sobre a que antes era dos sentidos, enquanto
que por outro lado a genética rompe com o conceito de um todo da
natureza ao menos circunstancial, como poderia ainda se predicar a
subordinação do organismo ao meio.
Por outro lado, na psicologia e ciências humanas o ponto de vista do todo perdura, com um novo cenário relacionado ao renascimento de temas romanticistas na filosofia. Logo a metodologia funcional opera o retorno de um holismo que porém só tem sentido relacionado à percepção e mente do homem. Mais tarde a radicalização mística de Capra na física torna o holismo algo singular, porém a tendência vem sendo de cientistas que já não renunciam a crenças particulares mesmo que elas não sirvam tão diretamente aos protocolos da pesquisa.
Aqui vemos que a perspetiva do todo começa num momento em que o conhecimento alcança algo que a moldura científica da época não prevê, assim uma física das forças no contexto do classicismo das Luzes. O funcionalismo também se esboça desde as incertezas provenientes da mecânica quântica e já antes dos avanços na física da energia, como pareceu tão ilógico o princípio de conservação, e vemos que Bréhier recenseia a epistemologia dessa época como meios de confrontar esse devir surpreendente da ciência.
Por outro lado, na psicologia e ciências humanas o ponto de vista do todo perdura, com um novo cenário relacionado ao renascimento de temas romanticistas na filosofia. Logo a metodologia funcional opera o retorno de um holismo que porém só tem sentido relacionado à percepção e mente do homem. Mais tarde a radicalização mística de Capra na física torna o holismo algo singular, porém a tendência vem sendo de cientistas que já não renunciam a crenças particulares mesmo que elas não sirvam tão diretamente aos protocolos da pesquisa.
Aqui vemos que a perspetiva do todo começa num momento em que o conhecimento alcança algo que a moldura científica da época não prevê, assim uma física das forças no contexto do classicismo das Luzes. O funcionalismo também se esboça desde as incertezas provenientes da mecânica quântica e já antes dos avanços na física da energia, como pareceu tão ilógico o princípio de conservação, e vemos que Bréhier recenseia a epistemologia dessa época como meios de confrontar esse devir surpreendente da ciência.
Exemplar da
naturphilosophie nascente na transição ao século XIX e similar ao
fluido universal de Mesmer, segundo Bréhier, é o sistema do mundo
de Restif de La Bretonne, seguindo Buffon, heliocêntrico mas com
planetas que se destacam do sol como indivíduos vivos que originam
espécies derivadas umas das outras até o homem - assim como o
poeta André Chénier pensando a terra como um ser vivo.
É a própria
ciência da época que está eivada do que Bachelard designaria
obstáculos epistemológicos, feita assim porém não para garantir-se
contra, mas para melhor permitir as generalizações do senso comum
desejoso de comprovar a imagem do universo representável.
Mas a linha de
raciocínio de Bréhier parece ser que se essa generalização é
permitida por conteúdos positivos ainda que não depurados, ela
poderia já ser de todo evitada pela circunscrição à reserva de
método como o que permitiria unir os dois séculos precedentes em
sua orientação puramente científica. É assim que ele opõe essa
naturphilosophie parente da teosofia, visão da natureza como um todo
que regula a ação das forças opostas por si tendentes à mútua
destruição, ao mecanicismo - seja cartesiano ou já newtoniano -
que apenas determina as leis de correspondência permitindo o espírito
transitar, conforme regras precisas, de uma à outra porção de
realidade. Ao que a naturphilosophie se deixa assemelhar à física
pré-socrática, Bréhier designa um "retorno ofensivo... numa
época a que se assistem retornos de todo tipo".
Com efeito, seguindo a
exposição de Bréhier poderíamos ter a impressão de que a
Revolução Francesa, não considerada pela parte de emancipação
que representou mas apenas pelo terror caótico que se seguiu, não
foi o produto das Ilustração, como habitualmente se propõe. Mas
sim do que ele designa Iluminismo. Não o cientificismo das Luzes
naturais que o termo denota ordinariamente, mas o movimento místico de variada índole, em geral
classificado pré-romântico, e que Kant e outros definiram
pejorativamente como "Shwärmerey", palavra que designa
"fanatismo", "entusiasmo", "delírio",
mas cujos representantes se consideravam, como tal, "iluminados".
Essa tendência
mística e sentimental especificamente pré-romântica compactou desde a influência de Rousseau até
reacionarismos de políticas religiosas tradicionalistas,
radicalmente contrárias à ciência positiva. Pode parecer estranho
creditar ímpeto populista revolucionário a decretos de censura
imperial ou a decisões de congressos de lojas maçônicas. Porém
não é nada ocioso conjecturar desse modo sobre o impacto populista
do comunismo de Bonneville, o programa de um cristianismo primitivo
em Villemoz, a tendência geral ao catolicismo a que atraem as
pregações dos abades a propósito da superioridade espiritual da
intuição da beleza sobre os raciocínios inteligentes dos doutores.
Todas estas e mais
vertentes que Bréhier reporta a propósito do seguimento mais tardio do
século XVIII ("as doutrinas do sentimento e o pré-romantismo"),
são de índole passional. Retórica arrebatadora voltada ao vulgo
de primitiva tendência apreciativa, a propósito da superioridade do
espírito original, longe da pesquisa especializada. Uma vez que
aquele alcança tão naturalmente a Deus, verdade da criação como
da natureza, enquanto o douto duvida e descrê, destaca e segrega.
Dela Bréhier recolhe vários exemplos.
Lavater incita a "abater o monstro da incredulidade, do socianismo e da irreligião". Proposição que o rei da Prússia faz suas ao exilar o cientista racionalista Nicolai. O congresso dos maçons de 1782 proscreve formalmente a filosofia cientificista do século, e a loja Royal York de Berlim, onde Fichte se afiliou em 1799, declara na letra do discípulo Fessler, que "não permitirá jamais compreender no número de seus objetivos e meios o que se chama a propaganda das luzes", como da razão científica.
Lavater incita a "abater o monstro da incredulidade, do socianismo e da irreligião". Proposição que o rei da Prússia faz suas ao exilar o cientista racionalista Nicolai. O congresso dos maçons de 1782 proscreve formalmente a filosofia cientificista do século, e a loja Royal York de Berlim, onde Fichte se afiliou em 1799, declara na letra do discípulo Fessler, que "não permitirá jamais compreender no número de seus objetivos e meios o que se chama a propaganda das luzes", como da razão científica.
Boneville ("O
Espírito das religiões') projeta a imagem do grande animal que é o
mundo, cuja alma é Deus, como o desenho totalizante da natureza e do
sentido, porém sendo o indivíduo descrente não homem, mas um orangotango. Nada de individual pode nesse grande todo ter qualquer direito de
afirmação. Se o Schärmerey postula uma cadeia entre os seres ou
força que os une a todos, força que vimos inspirar o mesmerismo,
conforme Bréhier chega assim Bonneville "à ideia
revolucionária da fraternidade e da igualdade", da qual
Boneville faz a adoção do "comunismo integral".
Numa via paralela, o
célebre Lavater se revolta contra o cosmopolitismo do universal, já
que a fé é individual. Porém o conteúdo da fé é a unidade do
todo em que "cada natureza contem a cópia de todas as outras",
assim "graças à continuidade entre os seres".
Vemos pois que esse
tipo de propaganda é aparentemente paradoxal, ao mesmo tempo do
populismo imediatista e de um tipo de aristocracia dos iguais no
direito de excluir o que destoa. Mas não se trata senão de
aparência, se compreendemos o sentido dessa aristocracia como sendo
a do "valor" cuja "significação" seria por si
mesma tanto evidente a todos, como por exemplo a beleza física, como
a hierarquia do mais e do menos da valoração como critério do
"preferível" (mais belo).
A transformação do
fato em valor absoluto e a puerilidade da "significação"
não seriam tão problemáticas se limitadas a sintomas de neurose
idiossincrática, porém resta por explicar a contaminação do
processo político de superação do "antigo regime"
aristocrático tradicional pelo populismo místico pré-romântico. Este é que o populismo atribui como o correlato da filosofia das Luzes, o cientificismo que inversamente os manuais de escola atribuem como uma das causas da revolução.
Seja como for que se
obtenha alguma compreensão a propósito, parece evidente que o pré-romantismo assim considerado como populismo místico esclarece o fenômeno do império napoleônico que se seguiu à
Revolução. Assim antes mesmo da Revolução e como o que a
impulsionou, temos misturada ao Shwarmerey a transformação do
objetivo legalista democrático em objetivo de liderança populista
carismática. Eu não creio que o recurso seja determinista, única
mola de propulsão do fato revolucionário bruto.
Em todo caso, há
sem dúvida um componente a mais na frente revolucionária francesa,
relativamente à ruptura de cem anos antes na Inglaterra. Se parece
forçado interpretar Rousseau como propagandista do populismo
carismático, e mesmo sua crítica do saber é mais anti-metafísica
do que propriamente anti-científica, é porém indiscutível sua
figura de antítese à nobreza aufklärung. A esta podemos caracterizar, junto ao
nobre Montesquieu, como restritos à meta do parlamentarismo inglês
que não obstante cercear constitucionalmente o exercício do
governo, não rompe necessariamente com a nobreza monárquica de
expressão classicista, o alvo das críticas passionais do
subjetivismo rousseauísta e "Sturmer" assim como mais
tarde do Romantismo. E quando a Revolução triunfou na França, foi Rousseau o consagrado grande herói.
Ao escopo do
presente estudo não seria oportuno deslindar a questão
sócio-histórica e política que levantamos. Para isso seria
necessário incursionarmos a uma pesquisa da extratificação social
realmente atribuível à mentalidade da época, e ainda por cima como
o que justamente estava mudando. Assim o sentido de beleza do
pré-romantismo, na medida que deve ainda muito ao universalismo
classicista, deixa de ser referencial ao romantismo que despreza o
"plástico" pelo pitoresco, o finito pelo infinito, o
perfeito pelo sugestivo, o imediato pelo refletido, o universalismo
canônico pelo relativismo estilístico, etc. Observação importante
para objetar a qualquer continuidade do pré ao romanticismo, à base de mera
radicalização do reacionarismo tradicionalista.
Pesquisa que também auxiliaria a desfazer os anacronismos terminísticos relativos ao significado contextual de palavras chave como "classe", "democracia" , "constituição" e "Estado". Como podemos comprovar pelo que vimos na parte inicial deste estudo. Aqui já estamos a braços com o problema complicado das relações entre permanência e mudança no âmbito do pensamento de Schelling.
Pesquisa que também auxiliaria a desfazer os anacronismos terminísticos relativos ao significado contextual de palavras chave como "classe", "democracia" , "constituição" e "Estado". Como podemos comprovar pelo que vimos na parte inicial deste estudo. Aqui já estamos a braços com o problema complicado das relações entre permanência e mudança no âmbito do pensamento de Schelling.
Como vimos, como
quer que se a situe numa grade de periodização, a filosofia da
natureza de Schelling está intimamente relacionada com o panorama
místico, literário e científico, de transição ao século XIX, e
nela o oxigeísmo e o magnetismo são temas que reportam o caráter
crucial que tomou a noção de polaridade. Tendo nesse referencial
uma base de ultrapassagem do desacordo que constatamos entre os
estudiosos da filosofia de Schelling, a partir daqui devemos
investigar os seus desdobramentos possíveis naquilo que seriam os
conceitos ulteriores. Mas se impõe assim a questão da
proveniência. Pois, de que modo podemos relacionar a filosofia da
natureza, não obstante o nome, a uma história que é da filosofia
em particular, e não das ideias científicas em geral?
3) Entre a Ciência e a
Filosofia
Algo que conecta
os dois planos temáticos, da filosofia de Schelling e do contexto
histórico, naquilo que mesmo aqui não pôde ser evitado como sua
interligação, é ver que na tendência Shwarmerey a qual Schelling
se ligou por princípio, o criticismo kantiano da razão prática,
que restaura o sentido da religião, é a única permitida, contra a
tendência Aufklaerung da crítica da razão pura. Na verdade esta
poderia ser uma chave na interpretação de todo pós-kantismo, já
não tanto como apenas a posição do Eu da consciência situada no lugar que antes ocupava o Cogito desde o inatismo de Descartes ao
transcendental de Kant. Mas como um desenvolvimento resolutivo da
aporia teleológica do kantismo.
A aporia está bem
expressa no prólogo da "Crítica do Juízo". Não podendo
atribuir finalidade à cadeia fenomênica, já restrita à
concatenação do percebido ao factual pelo liame único do intelecto
ou Razão, mas tendo transformado a coação apriorística dos
sentidos às categorias de tempo e espaço na garantia absoluta da
cientificidade do Real, ultrapassando assim o esse est percipi
como limite empirista da ciência, Kant pensa ter preenchido a lacuna
da expectativa quanto ao futuro dos fatos por uma transferência da
categoria apenas prática da finalidade ao que seria uma nova síntese
conceituada, como a do Juízo. Ou seja, supõe Kant ter possibilitado
novamente a ponte entre a ciência puramente empírica que estava a
essa altura praticamente autônoma de fato, e a filosofia como tarefa
da sua validação de direito.
Esta síntese,
responsável pelo ajuste, na forma de um juízo, de cada fato local
com a legislação da Razão como totalidade da experiência, o que
em nós equivale à complacência restrita a algo dotado de sentido
assim como o desprazer do que não é, garante pois como efetivamente
racional a experiência. Esta se torna assim aquilo com relação a
qual a objetividade é o absoluto e jamais ultrapassável, sem por
isso ter que fazer qualquer concessão ao noumeno. Isto é, àquilo
que é por si, independente das categorias da Razão, o que Kant
estabeleceu na limitação do incognoscível assim como de todo
inacessível.
Porém desse modo
Kant parece ter feito, sim, algum tipo de concessão ao noumeno. Pois
o que chamou de "princípio de conformidade a fins formal da
natureza" (grifo meu) deve manter-se puramente na
Razão,
conforme a síntese do juízo.
A
exigência criticista,
que
começou por ser de ordem apenas epistemológica, da garantia da
cientificidade além da mera
crença
na
continuidade da resposta dos fenômenos às nossas leis de
previsibilidade perceptiva, se
revelou como de fato uma exigência moral.
Com
efeito, uma garantia
assim só pode ser obtida se pudermos provar uma teleologia natural,
como era até aí considerado o desígnio de Deus.
Mas
desse modo o brilhantismo de Kant não se restringiu
ao seu começo, tendo sido
um enunciado "crítico" dos limites da Razão,
desenvolvendo-se contudo como crítica daquilo que já se retirara
dela
no
empirismo
radicalizado
da Aufklaerung
como especialmente o de Hume.
Revelou-se
mais pela reviravolta na qual,
com a segunda crítica, da razão prática,
colocou em causa a origem mesma da exigência da prova
factual da continuidade absoluta como critério necessário de uma
validação suprassensível da ciência.
Repetindo,
Kant a
definiu,
enquanto
uma exigência justificável - na acepção de meramente factível -
como
limitada à moralidade
e tendo nesta a origem concebível,
por ser aqui
somente
que o
ajuste de meios a fins é a
priori exigido.
Em
seguida porém,
porque a reserva fenomênica a priori não suporta qualquer relação
entre as duas ordens de fatos,
puro
ou natural e prático ou moral, opostos entre si como ordens da
necessidade e da liberdade, e
assim não houve qualquer demonstração da garantia prometida
quanto à exigência inicial
puramente epistemológica, Kant
parece voltar atrás quando quer dar a impressão de estar indo à
frente. Como vimos, o
ajuste na forma do juiz, entre um fato e o sentido dele na
experiência total, é absoluto apenas como a regra da minha
atribuição de algo como coerentemente
o que
posso
convir que
ele é.
Mas
o que Kant afirma estar garantindo por esse meio - ainda que ele
mesmo ressalve que o noumeno continua inacessível - é
a teleologia do mundo natural.
Entendemos bem que por "natural" aqui Kant designa o
meramente "objetivo", mas assim ele não poderia falar de
um finalismo, como de "conformidade a fins", da
natureza. A ambiguidade pois permanece entre os sentidos de natureza, conforme o que parece a nós e o que é o sistema da ciência. O problema epistemológico futuro, relativamente a Kant, tem aí a origem, pois o que se tornou sempre mais patente é a independência do sistema da ciência relativamente às categorias da psique individual, como se demonstrou no ponto alto dessa trajetória que representa Bachelard.
Na
atualidade, mediada como é por
ramos teóricos que derivam vitalmente dos
neokantismos
de
início do século XX, a
confusão gerada por essa espécie de generalização
indevida é porém máxima. Uma vez que esses neokantismos foram eles mesmos
problematizações que na verdade mais devem ao assim chamado, desde
Marx, "historicismo",
isto é, ao pós-kantismo romanticista
do
que a Kant propriamente, resultou
o seguinte. A categoria de "conformidade a fins" ficou
associada a cientificismo naturalista, especificamente "positivismo"
como posição antipática à evidência da pluralidade cultural, e
pela qual toda explicação real é científica na acepção de
universal.
A
cultura,
como conceito desconhecido por Kant mas bem pós-kantiano, se
tornou o único referencial das ciências humanas - que por isso tem
sido referenciada como "humanidades", dispensando-se o
incômodo atributo da cientificidade, ao menos para uma primeira
caracterização de sua irredutibilidade ao universalismo
objetivista. Mas desde o romantismo e especialmente Hegel, tendo havido a exigência de certa cientificidade própria das ciências humanas, singular relativamente aos métodos das ciências naturais. Não
obstante depois dos anos cinquenta a ambição do que começou por
uma renovação do historicismo - algo que tem muito de justo devido
às grosseiras
simplificações
do determinismo
materialista
dialético -
se
tornou fornecer um novo tipo de universal determinista, ainda que
puramente "humanístico". O que é compreensível pela
associação nesse ínterim, das duas correntes, humanista e
marxista.
A
princípio o neokantismo operou um recuo da razão prática à pura,
como na Escola de Marburgo,
desenvolvendo uma compreensão da cultura como âmbito
de
formas
simbólicas,
sistemas intrínsecos de valor assim como uma partitura musical ou um
conjunto de equações atinentes a um domínio de fenômenos
físicos.
O
desenvolvimento dessa tendência corresponde ao funcionalismo do
"ideal-tipo" na sociologia como paradigma humanístico de
princípios do século passado,
desenvolvendo-se especialmente em torno de Max Weber.
Heidegger
é um marco nessa trajetória porque, vindo de Dilthey e assim não
estranho ao ambiente neokantismo, de fato não se coaduna com a
orientação do simbolismo puro, por
isso que introduz o importante fator da temporalidade que lá não
penetra. Mas
assim vemos - como em minha recente "filosofia da potência"
almejei demonstrar - justamente o retorno da teleologia como um fator
importante na deriva paralela, que vai de Nietzsce a esse novo novo
kantismo do sublime, como podemos designar o pó-estruturalismo.
Em
tudo isso, se
o cenário recente ilumina um contexto em
que predomina a síntese do Juízo,
vemos que a relação do pós-positivismo com o pós-kantismo
ante-positivista conserva alguma irredutibilidade
justamente no que concerne a esse tipo de
seleção que incide sobre o que em Kant foi originado para ser
estabelecido em
concomitância.
Pois,
como ressaltei antes, o pós-kantismo,
diante da dificuldade dos fins, ao invés de cingir-se à razão pura
como o neokantismo, ou à síntese do juízo como o
pós-estruturalismo,
radicalizou a prioridade da razão prática que
vinha da tendência pré-romântica.
Numa
solução contudo bastante original, pela qual a
chave que abre o pós-kantismo é a reconceituação
do
Absoluto.
Este
já não poderia a priori cindir-se em planos imiscíveis, como o
puro e o prático.
O enunciado mesmo da síntese do juízo, que abrange uma mediação
estética do real, implica compreender,
não obstante a sua especificidade, a relação que convém à
convivência de ambos aqueles
planos puro e prático, numa
decorrência do Real que é a História
- o trânsito de um a outro, como do noumeno ao fenômeno, se o ser
humano mesmo não saiu do nada mas vem da natureza.
O meio termo dessa transição é formalmente o Evolucionismo,
pelo qual passa a admitir-se a
mudança orientada mesmo no seio da natureza.
Mas
assim vemos que o pós-kantismo estabilizou
o aventureirismo kantiano, de um empreendimento pós-metafísico
da validez transcendental do conhecimento, independente da evidência
empírica como limite da ciência factual
emancipada.
Se
a filosofia da natureza de Schelling representa a primeira
contribuição nesse caminho
da
historicização do transcendental, vimos
que ela se alicerça num conceito de polaridade universal não
inteiramente
discernível do rol das teorias que na época se consideravam
científicas.
Mas
que
mesmo assim
seria suficiente para livrar o exame da filosofia de Schelling da
rede de contradições que tem cercado a sua interpretação.
A
indagação que julgamos necessária a propósito dos desdobramentos
desse conceito
de polaridade, não obstante essa base firme, se
perderia
porém
na mesma complexidade, se dependesse em seu desenvolvimento das
mesmas fontes, naquilo que por elas é recoberto em termos do "que"
foi desenvolvido por Schelling desde o
que se considera seu pensamento inicial. Para
evitar esse perigo,
creio que seria estratégico tangenciar agora
o que seria o sistema maduro, como a filosofia a que Schelling
aportou após todos os incidentes de mutação ao longo do percurso.
Então
poderemos considerar o que foi feito da sua intuição inicial, e de
que modo ela se demonstra como suficiente motivo de junção da
ciência à filosofia. Mas se como vimos, considerar o sistema maduro depende de interpretações díspares, ao menos seria importante definir um fator que pudesse associar-se de um modo indelével ao pensamento de Schelling.
Esse fator seria a polaridade enquanto o enunciado pioneiro da antítese dialética que Hegel explora ao máximo. Schelling até mesmo conceitua a polaridade após o equipossível, o caráter isento de oposições do pensamento puro. A polaridade se articula por uma ideia que reúne os termos da antítese. A identidade é pois sempre restaurada.
A originalidade de Schelling se lança nesse hiato entre o Eu absoluto e o Não-eu, oposição que se atribui à conscienciologia de Fichte como entre sujeito e mundo. Pois se continuam a ser conceituados por uma irredutibilidade de princípio, como no fichteísmo, agora essa irredutibilidade é movimento no tempo, quanto até aí a forma pela qual Fichte tentava operar a unidade subjetivante teria ficado indefinida entre sua formulação inicial e o seu neoplatonismo posterior. A propósito desse aporte temporalizante Shellingniano, Schiller lançou a expressão “Aufhebung”, que será tão importante em Hegel como base da dialética. Porém no shellingnismo a “supressão” seria a do próprio tempo no tempo, pois o Eu finito opera a síntese do Eu absoluto e do mundo objetivo no tempo, mas de modo que a temporalidade assim se constitui, não deixando nada subsistir de intervalo ou hiato, a subjetividade no mundo conservando-se como imediatez por meio da finitude ou síntese dos dois princípios de Identidade e Alteridade.
Ora, para recuperar aquilo que ultrapassa a temporalidade, a Identidade no sentido do Eu absoluto, resta a intuição intelectual e aqui Philonenko nota que esse conceito foi proposto por Schelling anteriormente ao próprio Fichte. Em todo caso, a intuição intelectual é o que Kant proibia, posto que quem a tivesse seria Deus. Como a intuição das próprias categorias racionais independente de dedução necessária, a intuição intelectual seria a identidade prévia do pensar e do mundo pensado.
Parece em comum a Fichte e Schelling o objetivo da fixação do devir na subjetividade. A trajetória de Schelling a Hegel é pois a de um sentido da antítese como o meio de um equilíbrio ao sentido dela como o meio da superação. A crítica de Schelling a Hegel lembra ironicamente a crítica de Marx a este, como se Hegel pudesse responder de um modo materialista, pois para Schelling, Hegel apenas introduz na filosofia historicista o que os homens comuns gostariam que exaltassem neles mesmos, o elemento da ação.
Como uma teosofia, vemos que o romantismo preserva a relação com o seu "pré-". Enquanto uma filosofia da História à Hegel, que operou a crítica da mistura de ciência e misticismo, assim também de natureza e cultura, o romanticismo expressa sua independência como um materialismo subjetivo.
Mas como podemos assim observar, Hegel não se identificou propriamente com os românticos, criticando-os na Estética por não os considerar materialistas no sentido do universal, limitados a um subjetivismo unilateral. E se como vimos atribui-se a Hegel os prolegômenos de todo pensamento político futuro, não implica que o Realismo ou os movimentos posteriores tenha se declarado tributários de Hegel. Mesmo se o Realismo se introduz pelos "jovens hegelianos", já comprova essa independência a postura de Marx relativamente ao mentor - que recentemente até se considerou com Althusser, nem mesmo uma "inversão", mas total alteridade de perspectiva.
Se algo indiscernível do que o antecede com os "pré-românticos", o apogeu do Romantismo enquanto pensamento inantecipado coincide com o início do Realismo como um materialismo puramente objetivo. O enigma romanticista permanece.
A meu ver poderíamos sim considerar a tese da inversão do caráter idealista da dialética de Hegel pelo objetivismo revolucionário de Marx, o que não impede que este tenha realmente produzido na contingência do objetivismo. Mas assim também teríamos uma inversão da dialética na vontade de potência de Nietzsche, que inversamente ao escravo ou à versão proletária dele, consagrou o senhor como o motor da história. Algo que de Lacan ao pós-estruturalismo se mostra imensamente influente.
Hoje que se referencia já uma pós-modernidade, conforme testemunhos Hegel volta a se referenciar por um retorno do interesse pela teoria social tanto em termos de intersubjetividade como em termos da crítica à dominação. Sem dúvida os epítetos de um "neoromantismo" se multiplicaram na história desde o simbolismo até agora, e como se pode também objetar, uma inversão não basta para definir uma independência.
Mas assim o enigma romanticista se amplia, do pré- ao neo- e ao pós-. O que se mostra porém bastante vantajoso a uma reconsideração necessária da História.
Esse fator seria a polaridade enquanto o enunciado pioneiro da antítese dialética que Hegel explora ao máximo. Schelling até mesmo conceitua a polaridade após o equipossível, o caráter isento de oposições do pensamento puro. A polaridade se articula por uma ideia que reúne os termos da antítese. A identidade é pois sempre restaurada.
A originalidade de Schelling se lança nesse hiato entre o Eu absoluto e o Não-eu, oposição que se atribui à conscienciologia de Fichte como entre sujeito e mundo. Pois se continuam a ser conceituados por uma irredutibilidade de princípio, como no fichteísmo, agora essa irredutibilidade é movimento no tempo, quanto até aí a forma pela qual Fichte tentava operar a unidade subjetivante teria ficado indefinida entre sua formulação inicial e o seu neoplatonismo posterior. A propósito desse aporte temporalizante Shellingniano, Schiller lançou a expressão “Aufhebung”, que será tão importante em Hegel como base da dialética. Porém no shellingnismo a “supressão” seria a do próprio tempo no tempo, pois o Eu finito opera a síntese do Eu absoluto e do mundo objetivo no tempo, mas de modo que a temporalidade assim se constitui, não deixando nada subsistir de intervalo ou hiato, a subjetividade no mundo conservando-se como imediatez por meio da finitude ou síntese dos dois princípios de Identidade e Alteridade.
Ora, para recuperar aquilo que ultrapassa a temporalidade, a Identidade no sentido do Eu absoluto, resta a intuição intelectual e aqui Philonenko nota que esse conceito foi proposto por Schelling anteriormente ao próprio Fichte. Em todo caso, a intuição intelectual é o que Kant proibia, posto que quem a tivesse seria Deus. Como a intuição das próprias categorias racionais independente de dedução necessária, a intuição intelectual seria a identidade prévia do pensar e do mundo pensado.
Parece em comum a Fichte e Schelling o objetivo da fixação do devir na subjetividade. A trajetória de Schelling a Hegel é pois a de um sentido da antítese como o meio de um equilíbrio ao sentido dela como o meio da superação. A crítica de Schelling a Hegel lembra ironicamente a crítica de Marx a este, como se Hegel pudesse responder de um modo materialista, pois para Schelling, Hegel apenas introduz na filosofia historicista o que os homens comuns gostariam que exaltassem neles mesmos, o elemento da ação.
Como uma teosofia, vemos que o romantismo preserva a relação com o seu "pré-". Enquanto uma filosofia da História à Hegel, que operou a crítica da mistura de ciência e misticismo, assim também de natureza e cultura, o romanticismo expressa sua independência como um materialismo subjetivo.
Mas como podemos assim observar, Hegel não se identificou propriamente com os românticos, criticando-os na Estética por não os considerar materialistas no sentido do universal, limitados a um subjetivismo unilateral. E se como vimos atribui-se a Hegel os prolegômenos de todo pensamento político futuro, não implica que o Realismo ou os movimentos posteriores tenha se declarado tributários de Hegel. Mesmo se o Realismo se introduz pelos "jovens hegelianos", já comprova essa independência a postura de Marx relativamente ao mentor - que recentemente até se considerou com Althusser, nem mesmo uma "inversão", mas total alteridade de perspectiva.
Se algo indiscernível do que o antecede com os "pré-românticos", o apogeu do Romantismo enquanto pensamento inantecipado coincide com o início do Realismo como um materialismo puramente objetivo. O enigma romanticista permanece.
A meu ver poderíamos sim considerar a tese da inversão do caráter idealista da dialética de Hegel pelo objetivismo revolucionário de Marx, o que não impede que este tenha realmente produzido na contingência do objetivismo. Mas assim também teríamos uma inversão da dialética na vontade de potência de Nietzsche, que inversamente ao escravo ou à versão proletária dele, consagrou o senhor como o motor da história. Algo que de Lacan ao pós-estruturalismo se mostra imensamente influente.
Hoje que se referencia já uma pós-modernidade, conforme testemunhos Hegel volta a se referenciar por um retorno do interesse pela teoria social tanto em termos de intersubjetividade como em termos da crítica à dominação. Sem dúvida os epítetos de um "neoromantismo" se multiplicaram na história desde o simbolismo até agora, e como se pode também objetar, uma inversão não basta para definir uma independência.
Mas assim o enigma romanticista se amplia, do pré- ao neo- e ao pós-. O que se mostra porém bastante vantajoso a uma reconsideração necessária da História.
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